Friday, November 24, 2006

- Amar é cansar-se de estar só: é uma cobardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).

Bernardo Soares.

208. Assim como, quer o saibamos quer não, temos todos uma metafísica, assim também, quer o queiramos quer não, temos todos uma moral. Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha de haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não fazer bem, porque não sei o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Seu eu que males produzo se dou esmola? Sei eu que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou de ternura. Os benefícios são coisas que se infligem, por isso os abomino friamente. Se não faço bem, por moral, também não exijo que mo façam. Se adoeço, o que mais me pesa é que obrigo alguém a tratar-me, coisa que me repugnaria de fazer a outrem. Nunca visitei amigo doente. Sempre que, tendo eu adoecido, me visitaram, sofri cada visita como um incómodo, um insulto, uma violação injustificável da minha intimidade decisiva. Não gosto que me dêem coisas, parecem com isso obrigar-me a que as dê também - aos mesmo ou a outros, seja a quem for. Sou altamente sociável de um modo altamente negativo. Sou a inofensividade encarnada. Mas não sou mais do que isso, não quero ser mais do que isso, não posso ser mais do que isso. Tenho para com tudo que existe uma ternura visual, um carinho da inteligência - nada do coração. Não tenho fé em nada, esperança em nada, caridade para nada. Abomino com náuse e pasmo os sinceros de todas as sinceridades e os místicos de todos os misticismos ou, antes e melhor, as sinceridades de todos os sinceros e o misticismos de todos os místicos. Essa náuse é quase física quando esses misticismos são activos, quando pretendem convencer a inteligência alheia, ou mover a vontade alheia, encontrar a verdade ou reformar o mundo. Considero-me feliz por não ter já parentes. Não me vejo assim na obrigação, que inevitavelmente me pesaria, de ter que amar alguém. Não tenho saudades senão literariamente. Lembro a minha infância com lágrimas, mas são lágrimas rítmicas, onde já se prepara a prosa. Lembro-a como uma coisa externa e através de coisas externas; lembro só as coisas externas. Não é sossego dos serões de província que me enternece da infância que vivi neles, é a disposição da mesa para o chá, são os vultos dos móveis em torno da casa, são as caras e os gestos físicos das pessoas. É de quadros que tenho saudades. Por isso, tanto me enternece a minha infância como a de outrem: são ambas, no passado que não sei o que é, fenónemos puramente visuais, que sinto com a atenção literária. Enterneço-me, sim, mas não é porque lembro, mas porque vejo. Nunca amei niguém. O mais que tenho amado são sensações minhas - estados da visualidade consciente, impressões da audição desperta, perfumes que são uma maneira de a humildade do mundo externo falar comigo, dizer-me coisas do passado (tão fácil de lembrar pelos cheiros) -, isto é, de me darem mais realidade, mais emoção, que os simples pão a cozer lá dentro na padaria funda, como naquela tarde longíqua em que vinha do enterrro do meu tio que me amara tanto e havia em mim vagamente a ternura de um alívio, não sei bem de quê. É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu: Transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isso, não sei se sou feliz ou infeliz, nem me importa.

Fernando Pessoa

Wednesday, November 15, 2006

É preciso colocar-se ao alcance de todo mundo

Isto é o que me pedem. Acham-me muito extraordinário, muito inacessível. Sou igualmente incompreendido pelo notário, pela devota e pelo fabricante de supositórios. As afirmações rudimentares, os axiomas incontestáveis e até as obviedades mais evidentes tomam comigo um aspecto de mistério que ultraja o senso comum. Decidi portanto colocar-me ao alcance de todo mundo.
Mas ignoro como. Sou mesmo forçado a reconhecer que não sei o que essas palavras querem dizer. Devo entender que se está ao alcance de todo mundo quando se está situado de maneira propícia a receber de todos os lados bofetadas ou botinadas, situação, reconheço, que está bem pouco de acordo com meus hábitos e instintos? Quantas vezes, ao contrário, e com que força de cobiça, desejei, no mesmo sentido, que todo mundo estivesse ao meu alcance?
É verdade que esse desejo era absurdo, pois todo mundo é uma expressão ininteligível para designar uma coisa indiscernível. Quando me falam das pessoas do mundo, dos homens ou mulheres do mundo, meu pensamento vai de chofre a essa populaça elegante e estúpida, marcada com o selo do Príncipe dos demônios, pela qual Jesus disse que não rezaria. Compreendo logo a seguir, e sou mesmo tentado a correr ao cemitério mais próximo para contemplar, uma vez mais, a espantosa miséria dessas lajes orgulhosas que a santa de Dülmen via cobertas de trevas e que descem às vezes - já o fiz notar - abaixo do nível do chão, pouco tempo depois da sepultura.
Mas há uma multidão infinita de outra gente, todos aqueles que não podem ser ditos do mundo e que, entretanto, são implicitamente designados quando se diz: todo mundo. Nessa multidão há sobretudo gente pobre. Aqui minha razão falha e não vejo absolutamente como poderia, ao mesmo tempo, colocar-me ao alcance dos sepulcros negros e das vivas hóstias luminosas!
Colocar-me ao alcance de todo mundo, ainda uma vez! Vejamos! Oh, minha pobre alma, isto é possível? Responde-me, pois minha inteligência se cala. Estavas, esta manhã, na igreja, tentando unir-te, identificar-te com Jesus que doou-se a todos os homens. Rezaste, sem dúvida, tão bem quanto pudeste, pelos vivos e pelos defuntos. Com o risco de causar-me náuseas, chegaste mesmo a lembrar-te misericordiamente, suponho, daqueles que não são nem vivos nem mortos, que subsistem, ninguém sabe porquê, nas imundícies, e que são chamados de burgueses. É isto colocar-se ao alcance de todo mundo? Parece-me, ao contrário, que em um tal momento o mundo não era mais tangível para ti e que tu mesma te tornaste absolutamente intangível para ele... Tu não me dizes nada, tu também, e permaneço em minha questão como sobre uma estaca.
Eis-me então incapaz de fazer o que me pedem. Tentarei entretanto, já que estou acostumado com as tarefas impossíveis. Quem sabe? Talvez o mundo não seja tão vasto quanto se imagina. Quando uma pobre dona-de-casa remexe em sua lareira, espanta-se da quantidade de cinzas e do pouco combustível que lhe resta para cozinhar sua refeição e para aquecer sua casa. Pode ser que depois do preparo de minha precedente Exegese (1) eu encontre muito pouca coisa para colocar em meu forno e que Todo Mundo se reduza a algumas unidades vantajosas. Esse pensamento reanima-me.

Léon Bloy

Tuesday, November 14, 2006

A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino?

Sunday, November 12, 2006

começando...

"Falando por paradoxo: o homem é o ser limitado que não tem limites. Ultrapassar limites é inato ao homem. Para ultrapassar limites é preciso tê-los, é preciso ter o real e o possível, o determinado e o indeterminado. (Por isso a vida do homem de espírito está confinada na insegurança e na imperfeição, entre a vida e a forma.) O mundo de cada animal é completo e seguro, mas nós sabemos que estamos limitados, e para isso temos que ultrapassar os limites, tê-los visto de fora." - Rammstedt, Otthein.